'Yes we can!' - Os negros na música country Por Sérgio Hochheim Jr.
Atualizada dia 30/Janeiro/2009
Hello Hillbillies and Rednecks!!!
Novamente quero agradecer as inúmeras manifestações sobre a minha coluna anterior, principalmente à galera da banda Country Clube, do Rio de Janeiro, nas pessoas do Caique, levando as top 10 de alguns dos artistas de música country, que mandam muito bem, aqui em São Paulo.
Foi muito gratificante para mim, e acredito que muito legal também para as pessoas que leram, poder conhecer um pouco melhor algumas das pessoas que fazem a noite country paulistana.
Bem, na onda...melhor...na tsunami, chamada BARAK OBAMA, que invadiu os noticiários de todo o mundo, e a bem vinda certeza de que nosso planeta, ainda que tardiamente e de forma lenta, está rompendo os últimos laços com um dos piores tipos de preconceitos que temos, o racismo, resolvi pesquisar algo sobre a influência negra na música country e alguns de seus personagens.
Que benção para nós, seres humanos, habitantes da grande nave Terra, podermos ver subir ao posto mais importante do planeta, da nossa história contemporânea, um homem eleito, não por sua cor de pele e nem por suas raízes africanas, mas pela sua história, seus ideais e sua competência. Que felicidade estar vivo para ver subir o primeiro negro ao cargo de presidente dos Estados Unidos da América.
Nada mais, nada menos, do que a pessoa mais influente, enquanto os EUA continuarem a ser maior potência mundial.
Sinal de novos tempos? Esperamos que sim. Guardamos esta certeza, pois só de pensar que há cerca de 150 anos os negros eram tratados como sub raça, me deixa enojado. Eram considerados por alguns, como sub humanos ou símios proto-humanóides. Que diabos é isso? Bem, macacos que se assemelhavam ao Homem. Protótipos de seres humanos... Que absurdo!!! Que ignorância!!!
Só para traçarmos um paralelo histórico e geográfico, no berço da música country, os Estados Unidos da América, em 1865, terminava uma guerra que durará cerca de 5 anos (1861–1865), que aniquilou quase 1 milhão de pessoas, que representavam 3% do total da população americana. Nenhuma outra guerra matou tantos norte-americanos.
Esta guerra, chamada Guerra da Secessão ou Guerra Civil Americana, teve como foco principal, a disputa entre 11 Estados sulistas, liderados pela aristocracia latifundiária pró escravidão (Confederados) e o restante dos Estados americanos (União) que lutavam pela abolição da escravatura, principalmente dos negros africanos.
Mesmo com o final da guerra e com as criações da 13ª, 14ª , 15ª emendas, que punham final na escravidão, davam liberdade aos negros e até direito ao voto, não passou de uma cortina de fumaça, num país que era o maior país escravista do mundo.
A liberdade existia no papel, mas na prática, a coisa era bem diferente.
Os sulistas, humilhados pela derrota e com as medidas impostas pela União, deram início ao surgimento de sociedades secretas que perseguiam os negros, tais como Ku Klux Klan e Cavaleiros da Camélia Branca, levando violência, morte e segregação racial, que durou muitos anos. A vida dos negros ainda não era nada fácil.
E seguimos assim, por muitos anos, principalmente nos estados do sul. Logo no berço da nossa adorada country music.
Bem, aproveitando “as emendas”, falemos de música...Deixemos a história para os historiadores...
A música country, como já sabemos, sofreu, desde seus primórdios, uma grande influência da música negra, principalmente do Blues e do Black Gospel. Tanto é que o country já foi conhecido como White’s Blues (Blues dos Brancos).
Quem definiu esta divisão, foram as gravadoras e consequentemente o público: blues para o negros e country para os brancos.
Durante muitos anos foi praticamente impossível algum negro fazer sucesso em Nashville. Os que tentavam eram “apedrejados” pelos brancos, pelos dj’s, pelas gravadoras e, pasmem, até pelos próprios negros, que diziam coisas como: “Porque está tocando a música deles?”; “O que está tentando fazer?”; “O que está tentando ser?”. Realmente lidava-se com muita pressão naquela época. Pressão de todos os lados.
Existiram muitos personagens secundários negros que tentaram desbravar, sem sucesso, o mercado da música country, como o tocador de gaita Delford Bailey, afro-americano que foi um dos maiores astros do Grand Ole Opry, nos anos 20 e 30, e que só teve reconhecimento póstumo em 2005, eleito ao Hall of Fame da música country.
Surge então, em meados de 1960, um nome que mudaria a história dos negros na country music.
Nascido em 18 de março de 1938, em Sledge, no Mississipi, Charley Pride se tornaria não só o maiores ícone negro na música country, mas também um dos maiores ícones da própria música country independentemente de raça, cor, credo, religião e outros gêneros.
Pride tentou carreira como esportista (jogador de baseball), chegando à jogar pelo Memphis Red Sox e por equipes da Negro American League. Mas dono de uma voz de barítono espetacular, procurou na música uma outra forma de ganhar a vida.
Pride, encorajado por pessoas do calibre de Red Sovine e Red Foley, gravou suas primeiras canções no famoso estúdio Sun Records, em Memphis. Foram os primeiros passos.
Quando finalmente sua voz chegou aos ouvidos do produtor Chet Atkins, que por muitos anos foi “o cara” na RCA Records, sua vida começou à mudar.
Então em 1966, Pride gravou seu primeiro LP e suas músicas começaram a tocar nas rádios com grande sucesso. Principalmente as canções “Snakes Crawl at Night” e “Before I Meet You”, esta segunda lhe rendendo um Grammy no ano seguinte.
Charley Pride
Charley Pride - Kiss an Angel Good Morning
Depois disso foram “36 Number One Hits”, ou 36 primeiros lugares nas paradas, 70 milhões de discos vendidos pela RCA (segundo colocado na história da gravadora, só perdendo para Elvis Presley), 31 discos de ouro e 4 de platina.
Seu maior sucesso é “Kiss an Angel Good Morning”, lançado em 1971, que o ajudou à conquistar os prêmios de Artista do Ano da Country Music Association, no mesmo ano e de melhor vocalista masculino nos anos de 1971 e 1972.
Assista ao lado um vídeo de Charley Pride, cantando seu maior sucesso “Kiss An Angel Good Morning”, ao vivo no Marty Stuart Show.
Mais curiosidades de Pride:
1966
Figurou pela primeira vez na revista Billboard;
1993
Primeiro negro convidado à participar do Grand Ole Opry, em 70 anos de história;
1994
Lança sua autobiografia intitulada “Pride: The Charley Pride Story”;
1994
A Academy of Country Music, concede-lhe o prêmio de Pioneer Award;
1999
Recebe uma estrela na calçada da fama em Hollywood;
2000
Eleito para o Hall of Fame da Country Music.
Charley Pride
Fora diversos prêmios estaduais e até um vindo da Casa Branca, na gestão de Bill Clinton. Foram inúmeras merecidas homenagens.
Sua mais célebre frase diz tudo: “Nunca tive aflições sobre pele. Eu não tenho cor. Sou simplesmente Charley Pride, o homem”.
Que sirva de à todas a minorias que se sentem excluídas. Lutem, perseverem e vençam.
Sem saber que era impossível, simplesmente foi lá e fez...
E nosso querido Charley ainda está entre nós. Uma lenda viva.
Outro artista que tentou a sorte há bem pouco tempo foi rapper Troy Coleman, mais conhecido por nós como Cowboy Troy. Junto com os malucos Big & Rich e a “MusikMafia”, tentou emplacar alguns hits, porém sem muito sucesso.
Seu estilo de som é conhecido com “Hick-Hop”. Juro que para mim, este nome é novidade!!!
A música que melhor nos faz lembrar do moço é a “Rolling (The Ballad of Big & Rich)”, faixa de abertura do álbum de Big & Rich, de 2004, chamado “Horse of a Different Color”.
Já lançou dois álbuns: “Loco Motive” de 2005 e “Black in the Saddle” de 2007.
Os destaques de seu primeiro álbum são a faixa de abertura “I Play Chicken With the Trains”, com Big & Rich e “If You Don’t Wanna Love Me”, que ele gravou com Sarah Buxton.
Cowboy Troy
Ainda no primeiro álbum, participaram outros artistas de peso como Tim McGraw e James Otto.
Do segundo álbum, não tenho muito a destacar, à não ser a participação novamente de James Otto.
Parece que a mistura de Rap com country não fez a cabeça dos amantes de ambos os gêneros.
Rhonda Towns
Uma afro-americana, nascida no Arizona, também tenta a sorte nas ruas de Nashville e por todos os lugares que possa mostrar seu trabalho (independente) chamado “I Wanna Be Loved By You” de 2006.
Bonita e dona de uma bela voz, e afirmando ter influências de artistas do calibre de Reba McEntire, Patsy Cline, Vince Gill, Loretta Lynn e claro, Charley Pride, Rhonda Towns tenta fazer aquilo que alguns afirmam ser impossível: ser a primeira estrela negra da música country. A primeira diva afro-americana na country music.
Pesquisando sobre ela em seu site, consegui ouvir algumas músicas de seu álbum. Confesso que apesar de gostar de sua voz, achei seu trabalho um tanto “anos oitenta” demais, para o padrão atual da country music.
Ron Wynn, crítico de música do Nashville City Paper, afirma que Rhonda fez um álbum independente de ótima qualidade e que espera que ela supere os dois grandes obstáculos.
O primeiro é que as rádios de Nashville ignoram trabalhos independentes (será o famoso jabá, conhecido nos EUA como “Payola”, que inclusive é ilegal naquele país?).
O segundo obstáculo é convencer as pessoas em Nashville a investir e promover uma cantora afro-americana na música country. A grande maioria não vê sentido nisso.
Quem sabe agora com a “Obama Wave”??? Yes, they can!!!!
Bem, se tudo isso fosse uma corrida de cavalos e eu tivesse que apostar minha grana, eu apostaria num cara, que estreou com um trabalho maravilhoso e tem tudo para se tornar um verdadeiro “country star”.
Com “Learn to Live”, em 2008, ele fez seu “debut” no mundo country (ele já havia feito outros dois trabalhos solo anteriormente: “The Return of Mongo Slade” em 2001 e “Back Then” em 2002, mais ligados ao R&B).
O single “Don’t Think I Don’t Think About It”, estreou na posição 51 da Billboard Hot Country Songs e com o single que leva o nome do álbum “Learn to Live”, Rucker fez sua estréia no Grand Ole Opry em julho de 2008.
Posso falar de “camarote” deste álbum, pois já o ouvi inteiro, e é bom do começo ao fim. Meu destaque também é para a faixa “Learn to Live”, que anda direto no som do meu carro. Eu recomendo!!!!
Darius Rucker
Veio de uma banda de POP/Rock a Hootie and the Blowfish, onde era o “frontman”. Mas coisas pareciam levar Rucker para o country, quando estrelou um comercial da rede de fast-food Burger King, promovendo o lanche TenderCrisp Bacon Cheddar Ranch, cantando uma paródia de “Big Rock Candy Mountain”, uma música de domínio público, que estima-se ser da década de 1930, que fala da visão de paraíso, de um morador de rua, conhecido como “Hobo”. O country começava a fazer sentido.
Vale a pena fica de olho neste moço (nem tão moço assim, pois ele já tem 42 anos).
Em uma entrevista, Charley Pride fez uma pergunta: “Será que eles querem um novo Charley Pride? “. Era para ser uma pergunta retórica, mas...Pride, em breve saberemos esta resposta.
Com a ascensão de negros à cargos importantes no cenário mundial. Com destaque dos negros em várias atividades do nosso cotidiano. Com a constante globalização, que está influenciando muito nossas vidas e principalmente a música, que através, principalmente da internet, tem se difundido para todos os cantos do planeta, sem distinção, onde bandas de garagem podem além de gravar suas músicas em Home Studios, difundi-las via sites como MySpace e Youtube, entre outros, acredito que cada dia mais, pessoas das mais diversas raças e nacionalidades poderão fazer qualquer gênero de música e serem aceitas pelo seu talento e não por outros fatores, como cor da pele, por exemplo. Vai bastar amar o que faz.
Bem, eu tinha até um pouco mais para falar e também sobre alguns outros personagens, mas a coluna ficou muito grande. Portanto peço que pesquisem na internet, que acharão histórias muito legais de luta, perseverança, frustração e vitórias. Todos esses fatores nos trouxeram para onde estamos hoje. E o que fizermos hoje, nos levará ao futuro.
Se o Rap pode ter em um dos seus maiores ícones a figura de um branco, Eminen, porque não termos um negro como ícone da música country atual?
Como dica desta coluna, além do vídeo de Charlie Pride, quero indicar também o maravilhoso vídeo clip do newcomer (novato) Darius Rucker, cantando a romântica “Don’t Think I Don’t Think About It”.
PorSérgio Hochheim Jr. Vocalista da BlackSmith Country Band Conheceu seu primeiro amor na música country, em um LP da banda Poço (1982).
A música se chama “Sea of Heartbreaks”. www.bandablacksmith.com.br junior3h@hotmail.com